sábado, 30 de junho de 2012
sexta-feira, 29 de junho de 2012
O Pastor Amoroso Perdeu o Cajado,
O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo;
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo;
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
Alberto Caeiro
quinta-feira, 28 de junho de 2012
O Amor é Uma Companhia
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Alberto Caeiro
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Agora que Sinto Amor
Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
Alberto Caeiro
terça-feira, 26 de junho de 2012
Interpol - Pace is the Trick
I've seen love, and I followed the speeding of starlight
I've seen love, and I followed the speeding of starswept night
I've seen love, and I followed the speeding of starswept night
E eu Que Estou Bêbado de Toda a Injustiça do Mundo...
E eu que estou bêbado de toda a injustiça do mundo...
— O dilúvio de Deus e o bebé loirinho boiando morto à tona de água,
Eu, em cujo coração a angústia dos outros é raiva,
E a vasta humilhação de existir um amor taciturno —
Eu, o lírico que faz frases porque não pode fazer sorte,
Eu, o fantasma do meu desejo redentor, névoa fria —
Eu não sei se devo fazer poemas, escrever palavras, porque a alma —
A alma inúmera dos outros sofre sempre fora de mim.
Meus versos são a minha impotência.
O que não consigo, escrevo-o;
E os ritmos diversos que faço aliviam a minha cobardia.
A costureira estúpida violada por sedução,
O marçano rato preso sempre pelo rabo,
O comerciante próspero escravo da sua prosperidade
— Não distingo, não louvo, não (...) —
São todos bichos humanos, estupidamente sofrentes.
Ao sentir isto tudo, ao pensar isto tudo, ao raivar isto tudo,
Quebro o meu coração fatidicamente como um espelho,
E toda a injustiça do mundo é um mundo dentro de mim.
Meu coração esquife, meu coração (...), meu coração cadafalso —
Todos os crimes se deram e se pagaram dentro de mim.
Lacrimejância inútil, pieguice humana dos nervos,
Bebedeira da servilidade altruísta,
Voz com papelotes chorando no deserto de um quarto andar esquerdo...
Álvaro de Campos
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Bem Sei Que há Ilhas lá ao Sul de Tudo
Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo
Onde há paisagens que não pode haver.
Tão belas que são como que o veludo
Do tecido que o mundo pode ser.
Bem sei. Vegetações olhando o mar,
Coral, encostas, tudo o que é a vida
Tornado amor e luz, o que o sonhar
Dá à imaginação anoitecida.
Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento
Que ali agita os ramos em torpor
Passa de leve por meu pensamento
E o pensamento julga que é amor.
Sei, sim, é belo, é luz, é impossível,
Existe, dorme, tem a cor e o fim,
E, ainda que não haja, é tão visível
Que é uma parte natural de mim.
Sei tudo, sim, sei tudo. E sei também
Que não é lá que há isso que lá está
Sei qual é a luz que essa paisagem tem
E qual o mar por que se vai para lá.
Fernando Pessoa
domingo, 24 de junho de 2012
Mas a sensibilidade do nosso Ricardo Reis é estrondosamente reumática.
Mas a sensibilidade do nosso Ricardo Reis é estrondosamente reumática.
Faz festas à Musa, olhando para outro lado, pensando sei lá em quê.
Não pesquisemos. E, aliás, nas festas de Ricardo Reis não há foguetes,
porque a ode alcaica foi sempre uma pessoa sossegada.
Nesta agitação interior da sensibilidade portuguesa, figuramos no
texto nós dois, Caeiro e eu; o Fernando Pessoa é uma nota à margem, e o
Ricardo Reis uma nota falsa.
Da filosofia íntima de Ricardo Reis conclui-se que ele não espera
nada da vida senão vinho e morte. É simples mas um pouco frio, pois não
aquecemos o vinho, como os romanos. Este contemplar calmo e quase
afectivo da esperança da mortalidade absoluta tem qualquer coisa de já
morto. Um ente vivo deve ao menos revoltar-se por ter que morrer, a não
ser que julgue que não morre. Mas o Ricardo Reis trata a mortalidade
como se fosse a imortalidade e tem uma fé simples e confiante em coisa
nenhuma. Os faquirs concentravam-se fitando um ponto qualquer sem
importância; mas não se poderiam concentrar se fitassem o espaço
despido. O Ricardo Reis consegue este faquirismo da sensibilidade: fita o
Nada, sorri, e pede vinho. De vez em quando vira-se para o outro lado e
pede que o coroem de rosas. Nos intervalos vira-se para o terceiro lado
e diz «Chloe». Esta Chloe, que às vezes descamba em Lydia, é pranteada
na ode do Livro 1 com um adjectivo no masculino.
Bem sei que em Caeiro há a mesma indiferença para com a morte.
Mas Caeiro encara a morte como uma criança que ouviu falar dela; Ricardo
Reis como um velho que a tem à porta. Nem um nem outro acredita na
imortalidade, mas Caeiro não acredita porque não pensa, e Ricardo Reis
não acredita porque não acredita em nada. Por isso a leitura de Caeiro,
com mortalidade e tudo, anima e estimula como o sol e o céu, que também
não acreditam na imortalidade, e pela mesma razão de Caeiro; e a leitura
de Ricardo Reis desanima e desconsola - a ponto de chegar a
estorvar, com um estrangulamento do nosso pobre coração, a verdadeira
alegria estética que nos causa. Aquilo é belo como um belo cemitério.
Admiramos e saímos logo. Quanto mais belo mais nos aflige. Por baixo,
por contraste com a própria beleza, sente-se, como uma presença carnal
às avessas, a realidade imaginável do Nada.
Álvaro de Campos
sábado, 23 de junho de 2012
Ah, Abram-me Outra Realidade!
Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte - o que todos querem
O Sul - o que todos desejam
O Este - de onde tudo vem
O Oeste - aonde tudo finda
- Os quatro ventos do místico ar da civilização
- Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!
Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte - o que todos querem
O Sul - o que todos desejam
O Este - de onde tudo vem
O Oeste - aonde tudo finda
- Os quatro ventos do místico ar da civilização
- Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo
Álvaro de Campos
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Aquela Falsa e Triste Semelhança
Aquela falsa e triste semelhança
Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,
Isto não é o Carnaval, nem eu.
Tenho vontade de dormir, e ando.
O que passa, ondeando, em torno meu,
Passa (...)
Dormir, despir-me deste mundo ultraje,
Como quem despe um dominó roubado.
Despir a alma postiça como a um traje.
Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar. E vou,
Anónimo, (...) menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.
Álvaro de Campos
terça-feira, 19 de junho de 2012
A Frescura
Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.
Álvaro de Campos
segunda-feira, 18 de junho de 2012
A Esperança Como Um Fósforo Inda Aceso
A esperança como um fósforo inda aceso,
Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso.
A falha social do meu destino
Reconheci, como um mendigo preso.
Cada dia me traz com que esperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da esperança...
Mas viver é esperar e se cansar.
O prometido nunca será dado
Porque no prometer cumpriu-se o fado.
O que se espera, se a esperança é gosto,
Gastou-se no esperá-lo, e está acabado.
Quanta ache vingança contra o fado
Nem deu o verso que a dissesse, e o dado
Rolou da mesa abaixo, oculta a conta,
Nem o buscou o jogador cansado.
Fernando Pessoa
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Subscrever:
Mensagens (Atom)