terça-feira, 28 de julho de 2009

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Liberté


Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J'écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffée d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons réunis
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Dur miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ces oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté

Paul Éluard

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Tenho Mais Almas que Uma


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis

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domingo, 19 de julho de 2009

Ternura


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

quinta-feira, 16 de julho de 2009

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Mon Rêve Familier


Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D'une femme inconnue, et que j'aime, et qui m'aime,
Et qui n'est, chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m'aime et me comprend.

Car elle me comprend, et mon coeur transparent
Pour elle seule, hélas! cesse d'être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule les sait rafraîchir, en pleurant.

Est-elle brune, blonde ou rousse? Je l'ignore.
Son nom? Je me souviens qu'il est doux et sonore,
Comme ceux des aimés que la vie exila.

Son regard est pareil au regard des statues,
Et, pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L'inflexion des voix chères qui se sont tues.


Paul Verlaine - Poèmes saturniens

quarta-feira, 15 de julho de 2009

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Quantos Césares fui!


A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.

Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos dispersos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurando-o bem, o consegue prender. Napoleão, fazendo seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assassinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser.

Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer.

Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como se significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que se me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade dum domingo inteiro – tantos, sem se entenderem, e todos certos.

Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, a má disposição por ter comido fora de horas, ser domingo, a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica.

Mas quantos Césares fui!

Bernardo Soares, "Livro do Desassossego"

Pensamento do Ano


"Quem é morto, sempre aparece."

J.A.Reis

terça-feira, 14 de julho de 2009

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O que eu sinto


O que eu sinto eu não ajo.
O que ajo não penso.
O que penso não sinto.
Do que sei sou ignorante.
Do que sinto não ignoro.
Não me entendo e ajo como se entendesse.

Clarice Lispector

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Exit Light...

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Se Recordo


Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é o presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto

Que quem sou e quem fui

São sonhos diferentes.

Ricardo Reis

sexta-feira, 10 de julho de 2009

My Legacy


My legacy --
What will it be?
Flowers in spring,
The cuckoo in summer,
And the crimson maples
Of autumn...

Ryokan

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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Música No Coração






Instant Classics!!

I Remember Stupid Things


I remember stupid things,
Like when Aunt Mable lost her face,
And how we got on hands and knees,
But couldn't find it anyplace.
And how she goes without a nose,
How on her head there's just a hat.
And it's all true, I swear. For I
Remember stupid things like that.

Rick Walton

quarta-feira, 8 de julho de 2009

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O Saber Que Escapa Aos Relógios


Era uma vez um país onde os cegos davam longos passeios à beira-mar.
Arregaçavam as calças mas não se importavam de molhar as meias [por detrás das sandálias.
Desta forma elaborada dissertavam sobre a cor das águas.
Um dizia: «Quantas cores supões caberem dentro duma só vaga?»
Outro respondia: «Todas aquelas que sinto nos pés as confirmas no coração».
«Donde te vem sabedoria assim tamanha?», retorquia o primeiro; ao que o segundo exclamava:
«Da ignorância subjacente à tua pergunta».
Eu, que olho tanto para o mar, começo a intuir a minha cegueira
E já sinto o desconforto dos pés frios, condição indispensável
Para quem espera sem compreender a demora.
Deveria já ter resvalado para aquele país.
Por exemplo, já não vejo as coisas mas o espaço que há entre elas;
E não vejo os órgãos mas o intervalo que há entre eles
Espaço de fase, diz-se na Física quântica.
Por exemplo, já não me importo com o tempo dos verbos nem com a colocação rigorosa dos ficheiros.
Quase sempre paro as tarefas a metade, interrogando-me sobre aquilo que sabia antes de nascer.
Nas muitas longas horas que dedico à contemplação do mar nascem as sombras do futuro
E no lugar do futuro eu vejo-me sentado com grande pena de mim.
Não sei onde vou buscar a coragem para vos revelar todos estes segredos;
Repararam, por certo, na minha forma de falar, em moldes que não são permitidos.
Dir-se-iam quase escandalosos e por isso eu peço perdão.
Vejam bem: ainda me falta aprender a falar silenciosamente.
A verdade é que ganho a vida como professor e, confesso sem vaidade, sou famoso como tal.
É tudo tão estranho: nas novas salas de aulas a Cruz foi substituída [pelo relógio.
Dantes ela estava à frente, em cima de mim; agora ele está nas costas dos alunos
Cínico, só eu o vejo, obriga-me ao descrédito geral, à vergonha.
Um destes dias não resisti; os cegos estavam parados no beijo das ondas. Gritei bem alto:
«Sou eu quem vos permite a felicidade. Mandem outro para o meu lugar!»
Fingiram não ouvir-me; mas de imediato eu fui rodeado pelo bater ensurdecedor das asas seráficas
Pelo que tenho a certeza absoluta que me escutaram.
Hei-de pagar o meu atrevimento, esperando tanto mais absurdamente quanto decidi deixar de ler as horas.

Mário Cabral

terça-feira, 7 de julho de 2009

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Nunca fue tan breve una despedida
nunca me creí que fuera definitiva
nunca quise tanto a nadie en mi vida
nunca a un ser extraño le llamé mi familia

Nunca tuve fe en mi filosofía
nunca tuve yo ni gurú no guía
nunca desprecié una causa perdida
nunca negaré que son mis favoritas


Esta es mi flor de loto
y yo era su sombra
esta es mi flor de loto
mi mundo no se aclarará
tanto vagar para no conservar
nunca nada

Nunca una llama permanece encendida
nunca aguanté su calor
nunca más, nunca más de un día
nunca desprecié ser un alma invadida
hasta que vi frente a mí por quién yo moriría

Esta es mi flor de loto
y yo era su sombra
esta es mi flor de loto
mi mundo no se aclarará
tanto vagar para no conservar
nunca nada

Querrás tu rectificar
las líneas de mis manos
¿quién esparcirá al azar los posos del café?
¿Y qué decía la bola de cristal
cuando echó a rodar?
¿Qué más puedo necesitar?
Tengo algo que perder
¡no puedo perder!

Flor de loto
flor de loto
flor de loto
fácil es buscar
fácil no encontrar

Querrás tu rectificar
las líneas de mis manos
¿quién esparcirá al azar los posos del café?
¿Y qué decía la bola de cristal
cuando echó a rodar?
¿Qué más puedo necesitar?
Tengo algo que perder
¡no puedo perder!

O Milhundres

« Quiz o meu companheiro retroceder, mas eu convenci-o da desnecessidade de fugirem aos realistas dois pobres académicos que se presumiam politica e socialmente indefinidos neste mundo. Fomos avante. Exactissimamente : lá estava, na quebrada de um serro, densa mó de gente armada, com as armas embandeiradas de escarlate. A tiro de bala, mandaram-nos fazer alto - e nós paramos, fiados na lealdade dos parlamentários, que vieram a nós com as clavinas no braço. Eram dois, com o caudilho à frente. Milhundres era homem mal encarado. Cincoenta annos teria, e grisalhas as barbas. Vestia casaco de miliciano com insígnias de tenente, e dragonas de capitão mór. Trazia a banda a tiracolo, e uma longa espada de misericórdia enfiada num boldrié de coiro de anta. — Quem são, e d'onde vêm? disse elle. — Somos estudantes e vimos de Coimbra. — Quem vive? tornou elle. — O senhor D. Miguel! respondemos. — O senhor D. Miguel PRIMEIRO ! replicou o guerrilheiro, accentuando a palavra supplementar, como se a nossa profissão de fé, sem a addição, ficasse equivoca. — O senhor D. Miguel primeiro! repetimos, sacudindo os gorros. — Então, visto que são dos nossos, retrucou Milhundres, andem lá para a recta-guarda, que nós vamos entrar em Penafiel. Precisamos de quem escreva proclamações ao povo, e os senhores, se são estudantes hão-de fazer coisa que se veja. Consultei a minha bossa das proclamações, e disse: — Vamos lá! O meu companheiro estava enfiado, porque receava que o general guerrilheiro o nomeasse chefe de estado maior. Eu achava extrema graça a tudo aquillo. Entramos em Penafiel. Quando surgimos no cruzeiro que se ergue ao topo da primeira rua, os moradores da cidade começaram a fechar as portas. — Que ovação! disse eu ao meu condiscípulo. — Dir-se-ia que somos malta de salteadores que irrompemos das brenhas ! — Se pudéssemos fugir . . . murmurou o meu amigo. — Cala-te, que isso é serio! disse eu. Milhundres entoou os vivas aos quaes respondemos enthusiasticamente. Ao fim da rua engrossaram as nossas forças com três maltrapilhas armados de foices, e defronte da cadêa fizemos juncção com um alferes de milicias montado e alguns pedestres em tamancos. Repetiram-se os vivas. — Primeiro que tudo, disse o chefe, vamos à egreja dar graças a Deus. Era um Te-Deum económico, com profusão de fervor religioso. Abriu-se de par em par o templo. E os valentes prostraram- se, e resaram o bemdito com grande estridor de vozes. Evacuado o templo, disse eu a Milhundres; — É necessário proclamar?— É, vá vocemecê escrever um edital, e o seu companheiro outro, respondeu o caudilho. — Onde é o quartel general? perguntei. — Não sei por ora. Vocemecês onde se vão aquartelar ? — Na estalagem do Mulato - Pois então é lá. Eu vou nomear authoridades, e lá vou ter. Amanhã vem aqui fazer juncção comnosco o brigadeiro Bernardino. O Mac-Donell já está em campo, e o Cândido de Anêlhe é seu secretario. Diga lá isto vocemecê na proclamação. — Muito bem. Galopamos para o quartel general. — Vamos proclamar? disse eu ao meu companheiro. — Pois vae, que eu, em chegando ao cimo da rua, enterro as esporas nos ilhaes do macho, respondeu elle com as côres ainda quebradas. — Pois não achas isto bonito? Acaso estarás mais divertido na tua aldeia? Tiremos partido de tudo, emquanto não cheira a pólvora. Vamos collaborar numa proclamação em estylo biblico. — Pois fica, se achas graça a isto: eu de certo fujo. — Pois então também eu, que me parece estúpida a farça se me deixas em monologo. Era fácil e segura a fuga, mas honrosa não me pareceu muito. Eu ia envergonhado do meu procedimento, e compadecido do cabecilha. Pareceu-me desgraçado aquelle homem, e d'ahi vem o desvaneio da simpathia que lhe ganhei. Além de que, de mim confesso sem pejo que me não seria difícil escrever uma proclamação sentida; grammatical não direi. A minha familia era miguelista, e festejava, como em sinagoga recôndita, os dias solemnes da sua crença. Milhundres seria o bem-vindo e honorificado em casa de minha familia. la-me por isso a consciência recriminando de mau coração, de covarde animo, e de apóstata villão. Tudo isto me esqueceu quando cheguei a Amarante, e só me tornou à memória quando vi, em 1861, entrar Milhundres preso nas cadeias da Relação. »



Camilo Castelo Branco, in "Memorias do Cárcere"



O "Milhundres": João Nunes Borges de Carvalho, Tenente de Milícias, natural de Vila Cova de Vez de Aviz, Freguesia de Milhundos, Penafiel. Paladino trágico de uma causa perdida, liderou a guerrilha Miguelista durante a Patuleia, pelo que foi cognominado "O Capitão de Milhundos" pelas gentes da terra.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

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Diálogo Comigo











Falo comigo, falo.
Mas só me escuto quando,
em silêncio pensando,
me calo.


O que diz minha boca?
Mentira vã, sonora?
Tudo o que digo agora,
sufoca.


Ânsia íntima, larga,
de seguir só e mudo.
Tudo o que conto, tudo
amarga.


Minha voz de ontem brota
de um legendário hoje.
Subitamente foge,
ignota.


Quem serei? Desconheço.
Se chegar a sabê-lo,
a ninguém o revelo:
esqueço.


João Manuel Simões

domingo, 5 de julho de 2009

Blood Diamond

Hoje, numa TV perto de si.

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Herança


Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.


Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?


E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

Cecília Meireles

sábado, 4 de julho de 2009

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True Love


True love. Is it normal
is it serious, is it practical?
What does the world get from two people
who exist in a world of their own?

Placed on the same pedestal for no good reason,
drawn randomly from millions but convinced
it had to happen this way – in reward for what?
For nothing.
The light descends from nowhere.
Why on these two and not on others?
Doesn’t this outrage justice? Yes it does.
Doesn’t it disrupt our painstakingly erected principles,
and cast the moral from the peak? Yes on both accounts.

Look at the happy couple.
Couldn’t they at least try to hide it,
fake a little depression for their friends’ sake!
Listen to them laughing – its an insult.
The language they use – deceptively clear.
And their little celebrations, rituals,
the elaborate mutual routines -
it’s obviously a plot behind the human race’s back!

It’s hard even to guess how far things might go
if people start to follow their example.
What could religion and poetry count on?
What would be remembered? What renounced?
Who’d want to stay within bounds?

True love. Is it really necessary?
Tact and common sense tell us to pass over it in silence,
like a scandal in Life’s highest circles.
Perfectly good children are born without its help.
It couldn’t populate the planet in a million years,
it comes along so rarely.

Let the people who never find true love
keep saying that there’s no such thing.

Their faith will make it easier for them to live and die.

Wislawa Szymborska

sexta-feira, 3 de julho de 2009

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O Chão é Cama para o Amor Urgente


O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Com a Fortuna não Perde o Ser de Besta


Na carreira veloz, a deusa cega
Lança às vezes a mão a um feio mono
E o sobe, num instante, a um coche, a um trono,
Onde a Virtude com trabalho chega.

Porém se, louca, num jumento pega,
Por mais que o erga não lhe dá abono:
Bem se vê que foi sonho de seu sono,
Quando a vara ou bastão ela lhe entrega.

Pouco importa adornar asno casmurro
Com jaezes reais, mantas de festa,
Se a conhecer se dá no rouco zurro.

Quem, no berço, por vil se manifesta,
Quem nele baixo foi, quem nace burro,
Co'a Fortuna não perde o ser de besta.

Francisco Joaquim Bingre

Momento Zen

Depois da Papa Maizena...


... a ração Progado.
Eh, touro lindo......

Herrar é Umano... :S





será que lhes põem algo na água...?
...bah...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

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At a Window


Give me hunger,
O you gods that sit and give
The world its orders.
Give me hunger, pain and want,
Shut me out with shame and failure
From your doors of gold and fame,
Give me your shabbiest, weariest hunger!

But leave me a little love,
A voice to speak to me in the day end,
A hand to touch me in the dark room
Breaking the long loneliness.
In the dusk of day-shapes
Blurring the sunset,
One little wandering, western star
Thrust out from the changing shores of shadow.
Let me go to the window,
Watch there the day-shapes of dusk
And wait and know the coming
Of a little love.

Carl Sandburg