sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Estrela da Manhã


Eu quero a estrela da manhã.

Onde está a estrela de manhã?

Meus amigos, meus inimigos, procurem a estrela da manhã!

Ela desapareceu, estava nua.

Desapareceu com quem?

Procurem por toda parte.

Digam que sou um homem sem orgulho, um homem que aceita tudo. Que me importa? Eu quero a estrela da manhã.

Três dias e três noites fui assassino e suicida. Ladrão, pulha, falsário.

Virgem mal-sexuada, atribuladora dos aflitos, girafa de duas cabeças! Pecai por todos, pecai com todos.

Pecai com os malandros, pecai com os sargentos, pecai com os fuzileiros navais. Pecai de todas as maneiras. Com os gregos e com os troianos, com o padre e com o sacristão, com o leproso e depois comigo.

Te esperarei com mafuás, novenas, cavalhadas. Depois, comerei a terra e direi coisas de uma ternura tão simples, que desfalecerás.

Procurem por toda parte.

Pura ou degradada até a última baixeza, eu quero a estrela da manhã.


Manuel Bandeira

1 comentário:

Y disse...

E se for a 'Estrela da Tarde'...?

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

José Carlos Ary dos Santos