quarta-feira, 21 de março de 2007


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa - "Autopsicografia"

1 comentário:

Ana disse...

"Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia."

António Gedeão